Contratar no Brasil virou uma decisão de risco
Toda empresa que cresce chega, cedo ou tarde, a uma pergunta aparentemente simples: contratar ou não contratar?
Em um ambiente econômico saudável, essa deveria ser uma decisão de expansão. Mais gente significa mais produção, mais atendimento, mais renda circulando e mais desenvolvimento. No Brasil, contratar passou a significar também outra coisa: assumir um risco que nem sempre cabe na planilha.
O custo direto já é conhecido por quem empreende. Um funcionário formal custa à empresa muito mais do que o salário que recebe, considerando encargos, INSS patronal, FGTS, férias, 13º salário, benefícios e provisões. Esse é o custo visível, previsível, aquele que o empresário consegue calcular antes de tomar a decisão.
O problema maior está no custo invisível: a insegurança.
O empresário brasileiro não lida apenas com o desafio natural de abrir, manter e fazer crescer uma empresa. Ele opera em um país de juros altos, crédito caro, carga tributária pesada, burocracia extensa e recorde de empresas em recuperação judicial. Em 2025, o Brasil chegou a 5.680 empresas em recuperação judicial, o maior número da série histórica.
Somado a isso, há um ambiente trabalhista em que decisões comuns de gestão podem se transformar, anos depois, em passivos relevantes. A Justiça do Trabalho recebeu 2,321 milhões de novos processos em 2025, alta de 8,47% em relação ao ano anterior e o maior volume desde a reforma trabalhista de 2017.
Esses números revelam algo que precisa ser dito com clareza: o problema não está na proteção ao trabalhador. A proteção é necessária e civilizatória. O problema está em um sistema que, em vez de gerar segurança para quem trabalha e para quem emprega, produz incerteza para os dois lados.

Wagner Barradas é advogado trabalhista. (Foto: Divulgação)
A discussão trabalhista no Brasil costuma ser colocada como se empresário e trabalhador estivessem em campos opostos. Essa divisão é confortável para o debate político, mas é insuficiente para a vida real das empresas. O empresário que quer crescer precisa de gente. O trabalhador que busca estabilidade precisa de empresas saudáveis. Um depende do outro.
O conflito verdadeiro não está entre capital e trabalho. Está entre quem produz e um modelo institucional que torna cada decisão mais cara, mais lenta e mais insegura.
Quando uma empresa deixa de contratar por medo do custo futuro, quem perde não é apenas o empresário. Perde o trabalhador que poderia ocupar aquela vaga. Perde o consumidor, que paga mais caro. Perde a economia, que cresce menos. Perde o país, que continua tratando quem gera emprego como suspeito antes mesmo de qualquer irregularidade.
A consequência já aparece no mercado. Mesmo com melhora nos indicadores de emprego, a informalidade segue próxima de 38% da população ocupada. São milhões de brasileiros trabalhando fora da proteção plena que o sistema diz defender. Na outra ponta, profissionais qualificados passaram a vender sua força de trabalho para empresas estrangeiras, muitas vezes como pessoa jurídica, em dólar e fora da lógica tradicional da CLT.
Nas duas pontas, a mensagem é parecida: quando o sistema formal fica caro, confuso ou imprevisível, parte do mercado procura uma saída.
Esse impacto é ainda mais sensível nas empresas familiares, que formam a base de boa parte da economia brasileira. Muitas delas crescem a partir da confiança. O fundador conhece os funcionários, acompanha a operação de perto, resolve problemas diretamente e toma decisões com rapidez. Essa proximidade é uma força. Mas, sem governança, também pode virar fragilidade.
Com o tempo, aquilo que começou simples passa a exigir método. Cargos precisam ser definidos. Jornadas precisam ser registradas. Benefícios precisam seguir critérios. Prestadores de serviço precisam ser corretamente enquadrados. A remuneração variável precisa ter regra. A informalidade interna que parecia funcionar no dia a dia pode se transformar em problema no momento da sucessão, da expansão, da entrada de novos sócios ou da tomada de crédito.
Não é preciso falar em grandes operações de mercado para entender o tamanho do risco. Em uma empresa familiar, um passivo trabalhista pode impedir a abertura de uma nova unidade, dificultar a transição para os filhos, reduzir a confiança de bancos, comprometer investimentos e travar justamente o momento em que o negócio deveria avançar.
O trabalhista, portanto, deixou de ser apenas um tema jurídico. Passou a ser um tema de continuidade empresarial.
E esse risco raramente nasce da má-fé. Nasce, muitas vezes, da complexidade. O empresário adapta jornada, negocia pagamento, acumula funções, contrata prestadores, cria bônus, muda rotinas e toma decisões para manter a operação de pé. Só depois descobre que aquilo que parecia razoável na gestão pode ser interpretado de outra forma em um processo.
É um risco silencioso. Não aparece de imediato no balanço. Aparece quando já virou reclamação, execução, bloqueio, acordo emergencial ou contingência em uma negociação importante.
A discussão sobre contratação de pessoas jurídicas e autônomos ilustra bem esse cenário. O Supremo Tribunal Federal ainda discute os limites da contratação por PJ e autônomos no Tema 1.389. Em junho de 2026, a Corte retirou a suspensão de processos nas Varas do Trabalho e nos Tribunais Regionais, permitindo que milhares de ações voltassem a tramitar antes da fixação definitiva da tese.
Na prática, o empresário continua tomando decisões hoje sem saber exatamente qual será a régua definitiva amanhã.
É isso que precisa mudar.
Um país que quer gerar emprego não pode tratar a contratação formal como um ato de coragem. Não pode transformar cada novo funcionário em uma dúvida permanente. Não pode exigir do empresário uma capacidade quase premonitória para saber como determinada prática será interpretada anos depois.
A Justiça do Trabalho é essencial para corrigir abusos e proteger direitos. Mas um ambiente que produz mais de 2,3 milhões de novas ações em um ano não
pode ser tratado como sinal de normalidade. É sinal de que a regra não está sendo compreendida da mesma forma por quem contrata, por quem trabalha, por quem fiscaliza e por quem julga.
A melhor relação trabalhista é aquela que não precisa virar processo para ser compreendida.
Ao empresário, cabe abandonar a lógica reativa. Governança trabalhista não é excesso de formalidade. É proteção do negócio. É organizar contratos, funções, políticas internas, jornadas, remuneração variável, terceirizações e relações com PJs antes que a operação cresça sobre bases frágeis.
Isso vale especialmente para empresas familiares. Sucessão não se prepara apenas com acordo de sócios, testamento ou planejamento patrimonial. Também exige uma empresa organizada por dentro. Ninguém transfere com segurança um negócio cheio de passivos invisíveis.
Ao país, cabe o mínimo: previsibilidade.
Regras claras. Menos burocracia. Mais coerência institucional. Mais respeito por quem assume o risco de gerar trabalho. Proteger o trabalhador e dar segurança ao empregador não são objetivos opostos. São partes da mesma agenda.
Sem empresa saudável, não há emprego sustentável. Sem segurança jurídica, não há crescimento consistente. Sem confiança, não há investimento de longo prazo.
O Brasil precisa parar de colocar empresário e trabalhador em lados inimigos. O inimigo comum é a insegurança que encarece tudo, trava decisões e empurra o país para uma economia menor do que poderia ser.
Enquanto contratar continuar sendo uma aposta de alto risco, o Brasil seguirá perdendo oportunidades. E a conta, como sempre, não ficará apenas com a empresa. Ficará com todos.
*Wagner Barradas é advogado especialista em Direito do Trabalho Empresarial e Direito Societário, sócio da ALB Direito Empresarial, e Presidente da Comissão de Direito Empresarial da OAB de Arapongas (PR). Com especialização em Direito Empresarial pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), atua com foco em governança trabalhista preventiva e assessoria jurídica estratégica para empresas de médio e grande porte no Norte do Paraná