Sistema elétrico sob pressão: avanço da energia solar e eólica expõe limites da rede

Avanço da geração solar e eólica supera capacidade da rede e leva ONS a cortar produção diária para evitar sobrecarga.

energia eólica_unsplashOferta de energia limpa já supera a capacidade da rede de transmissão e distribuição no Brasil. (Foto: Unsplash)

O rápido crescimento da geração solar e eólica no Brasil, especialmente no Nordeste, tem criado desequilíbrio no sistema elétrico. A oferta de energia limpa já supera a capacidade da rede de transmissão e distribuição, levando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a reduzir diariamente a produção — prática conhecida como curtailment.

Em períodos de baixa demanda, como no feriado do Dia dos Pais, quase 40% da energia gerada no país veio de fontes solares. O volume obrigou o ONS a adotar operações emergenciais para evitar apagões. Em agosto, os cortes chegaram a 36% do potencial da energia solar e 21% da eólica, o que pode gerar prejuízos de R$ 3,2 bilhões em 2025, segundo dados da CNN Brasil e da ABEEólica.

“O curtailment é uma medida necessária para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico. A geração e o consumo precisam estar sempre equilibrados. Quando há excesso de oferta, o sistema pode ficar sobrecarregado e até colapsar”, afirma Michele Rodrigues, professora do curso de Engenharia Elétrica da FEI.

A expansão da geração distribuída — sistemas solares instalados em residências e empresas — tem ampliado a complexidade do problema. Essa energia é injetada diretamente na rede local, fora do controle direto do ONS, o que agrava o desafio de balancear oferta e demanda.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) prepara um Plano de Gestão de Excedentes na Rede de Distribuição, com entrega prevista até o fim de outubro, que poderá incluir o desligamento temporário de usinas em períodos de sobrecarga.

Entre as alternativas em análise estão investimentos em baterias de armazenamento, ampliação da rede de transmissão, criação de tarifas dinâmicas e ajustes regulatórios para garantir eficiência e estabilidade ao sistema.

“O Brasil vive um paradoxo energético: em alguns momentos, precisa desligar usinas solares e eólicas porque há energia demais; em outros, acionar termelétricas caras e poluentes para compensar a falta de geração solar à noite. O desafio é tornar o sistema mais inteligente e eficiente”, conclui Rodrigues.