Retomada da Argentina vira alavanca de crescimento para caminhões da Volkswagen no Brasil
Integração industrial entre Brasil e país vizinho ganha escala com avanço do mercado argentino e reforça projeções positivas da montadora para 2026.
Roberto Cortes, presidente e CEO da Volkswagen Caminhões e Ônibus. (Foto: Divulgação)
A recuperação do mercado argentino de veículos pesados tem se tornado um vetor relevante de crescimento para a Volkswagen Caminhões e Ônibus também no Brasil. Com maior integração entre as operações industriais dos dois países, a montadora conseguiu ganhar escala, eficiência logística e acelerar as vendas regionais, segundo Roberto Cortes, presidente e CEO da companhia, em entrevista à Bloomberg Línea.
De acordo com o executivo, a estabilização econômica promovida pelo governo de Javier Milei impulsionou a demanda por caminhões na Argentina, criando um ambiente favorável para a expansão da marca. “O mercado argentino cresceu bastante e nós crescemos ainda mais. Depois da inauguração da fábrica em Córdoba, triplicamos o volume de vendas em 2025 em relação ao ano anterior”, afirmou Cortes.
A unidade argentina, inaugurada em 2024, opera com o modelo CKD (Completely Knocked Down), no qual kits produzidos no complexo industrial de Resende (RJ) são enviados desmontados para montagem local. O processo inclui soldagem, pintura e integração de componentes, o que reduz prazos de entrega e melhora a eficiência produtiva.
Segundo Cortes, esse modelo trouxe ganhos claros de “lead time”. “Ter as peças disponíveis localmente em Córdoba torna a produção mais eficiente e fortalece a competitividade da operação regional”, disse.
Em 2025, o mercado argentino de caminhões cresceu cerca de 35%, enquanto a Volkswagen avançou aproximadamente 40%, reforçando a estratégia de integração fabril entre os dois países.
O desempenho na América Latina, no entanto, não foi homogêneo. No México, outro mercado relevante para o grupo, a entrada em vigor da norma Euro 6 elevou custos e pressionou as vendas. De acordo com estimativas da empresa, o setor mexicano recuou cerca de 30% em 2025, impacto atribuído à necessidade de atualização tecnológica dos veículos para atender às exigências ambientais.
No Brasil, maior mercado global da Volkswagen Caminhões e Ônibus, o cenário também foi desafiador em 2025. As vendas acumuladas até novembro recuaram 8% na comparação anual, puxadas pela retração no segmento de caminhões extrapesados, fortemente ligado a setores como agronegócio e mineração.
Ainda assim, Cortes destacou que a empresa é menos dependente desse nicho e projeta encerrar o ano fiscal de 2025 com crescimento de cerca de 10% no país, sustentado pelas categorias de veículos leves e pesados.
Para 2026, a expectativa é de um ambiente mais favorável. Uma das principais apostas da montadora é uma nova linha de financiamento para renovação de frota, com recursos do BNDES. A previsão é que o programa disponibilize cerca de R$ 6 bilhões, reduzindo os juros de financiamento de patamares próximos a 20% para algo entre 14% e 15%, mediante critérios como conteúdo local mínimo.
A Volkswagen também segue investindo em soluções alternativas de propulsão. A empresa foi pioneira no Brasil na produção de caminhões leves 100% elétricos, com a linha e-Delivery. Hoje, no entanto, os modelos elétricos representam apenas 1% da produção, reflexo do custo elevado das baterias, que ainda são majoritariamente importadas.
“O veículo elétrico ainda é mais caro, mesmo sendo produzido no Brasil. A maior parte dos clientes acaba optando pela combustão”, explicou Cortes. Ainda assim, ele afirmou que, no transporte urbano e no chamado last mile, a solução elétrica tende a ganhar espaço gradualmente.
Na avaliação do executivo, nos próximos cinco a sete anos, a curva de adoção de veículos elétricos deve ultrapassar a dos modelos a combustão, à medida que custos caiam e a infraestrutura avance. Para aplicações de média e longa distância, porém, a montadora aposta em uma combinação de tecnologias, incluindo soluções bicombustíveis.
Olhando para o cenário macroeconômico, Cortes disse enxergar mais fatores positivos do que negativos para 2026 no Brasil, especialmente em um ano eleitoral, que costuma trazer maior volume de investimentos públicos, além da expectativa de uma safra agrícola robusta.
“Estamos otimistas, mas cautelosos. Ajustamos a operação conforme o cenário, sempre com foco em eficiência e responsabilidade. Ganhar market share é consequência, não o objetivo a qualquer custo”, concluiu o executivo, em entrevista.