Campos Neto afirma que Brasil só alcançará juros de um dígito com avanço fiscal
Ex-presidente do Banco Central diz que queda estrutural dos juros depende de ajuste fiscal e comenta cenário econômico e tecnológico.
Roberto Campos Neto, vice-chairman e chefe global do Nubank. (Foto: Bruna Lopes/LIDE)
Roberto Campos Neto, vice-chairman e chefe global do Nubank, afirmou que o Brasil precisa construir condições para alcançar juros de um dígito. Durante sua exposição no LIDE Brasil França Fórum, ele declarou que “para a gente ter uma queda de juros que faça diferença em termos de produtividade e de planejamento de longo prazo, ter um juros no Brasil de um dígito”, ressaltando que isso depende de um “choque positivo na área fiscal”.
Campos Neto afirmou que, embora haja expectativa de redução da taxa no futuro próximo, a trajetória mais relevante depende do avanço fiscal. Ele citou que a economia brasileira deve desacelerar, com previsão de queda de 0,9% no terceiro trimestre e crescimento anual entre 2,1% e 2,2%. Também mencionou que o mercado de trabalho permanece apertado e que a inflação em 12 meses está em 4,65%, ainda acima da meta.
O executivo destacou reformas aprovadas pelo Congresso nos últimos anos, citando autonomia do Banco Central, reformas previdenciária e trabalhista, e a reforma tributária, afirmando que essas mudanças surpreenderam observadores internacionais durante a pandemia.
Campos Neto abordou ainda elementos globais que influenciam juros e risco, como polarização política, envelhecimento populacional, aumento de impostos sobre capital, custos ambientais e tensões geopolíticas. Segundo ele, esses fatores compõem uma “nova ordem global” com impacto direto sobre as condições financeiras.
Ao tratar de tecnologia, afirmou que o avanço do poder computacional e do armazenamento de dados impulsionou modelos mais eficientes de IA, mas também tende a pressionar mercados de trabalho e aumentar a desigualdade entre países com e sem domínio tecnológico.
No setor financeiro, Campos Neto destacou que a tecnologia ampliou a inclusão. Ele afirmou que 50 milhões de pessoas foram incorporadas ao sistema bancário e que 94% da intermediação financeira no país é digital. Segundo ele, fintechs ampliaram competição e reduziram custos operacionais, permitindo oferta de crédito de tickets menores.
O executivo defendeu a continuidade da agenda de inovação implementada pelo Banco Central, citando o Pix, a regulação de IA no setor financeiro e o avanço das regras sobre criptoativos. Ele encerrou afirmando que há espaço para parcerias internacionais nessas áreas.