Estudo investiga presença de microplásticos nas vias aéreas de pacientes com apneia do sono
Pesquisa com participação da USP identifica partículas em todos os pacientes avaliados e aponta associação com marcadores de inflamação nas vias respiratórias.
O estudo amplia o conhecimento sobre os possíveis efeitos dos microplásticos na saúde respiratória. (Foto: Magnific)
A apneia do sono é um distúrbio que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e se caracteriza por interrupções repetidas da respiração durante o sono. Isso ocorre porque as vias aéreas ficam parcial ou totalmente bloqueadas, reduzindo a passagem de ar. Um estudo com participação de pesquisadores da USP, publicado na revista da American Academy of Sleep Medicine (AASM), analisou a presença de microplásticos nas vias aéreas superiores de pacientes com apneia do sono e investigou se essas partículas estão associadas a processos inflamatórios.
Entre os autores do trabalho estão a professora e médica patologista Thais Mauad, especialista nos impactos dos microplásticos sobre a saúde humana, e o professor Michel Cahali, da Faculdade de Medicina da USP, criador da técnica de faringoplastia lateral, que modificou o tratamento cirúrgico da apneia do sono.
Microplásticos e o uso do CPAP
Segundo Thais Mauad, os microplásticos estão disseminados por todo o planeta. As primeiras pesquisas sobre o tema surgiram há cerca de 20 anos, inicialmente voltadas aos oceanos, onde foram identificados os macroplásticos e, posteriormente, os microplásticos. Hoje, sabe-se que essas partículas estão presentes em praticamente todos os biomas, inclusive em regiões remotas, como a Antártida e o Ártico.
O estudo teve origem após um episódio envolvendo a fabricante Philips, nos Estados Unidos. A empresa realizou um recall de modelos de CPAP — equipamento utilizado no tratamento da apneia do sono que mantém as vias respiratórias abertas por meio de um fluxo contínuo de ar pressurizado — devido ao desgaste da espuma interna de alguns aparelhos. A partir desse caso, os pesquisadores buscaram verificar se pacientes que utilizavam o equipamento acumulavam mais microplásticos nas vias respiratórias.
O que a pesquisa encontrou
Os resultados mostraram que o uso do CPAP não aumentou a quantidade de microplásticos. As partículas foram encontradas nas vias aéreas superiores de todos os pacientes avaliados, independentemente do uso do equipamento. Ao comparar os grupos, os pesquisadores verificaram que o tratamento não estava associado a uma maior concentração dessas partículas.
O principal achado foi a associação entre concentrações mais elevadas de microplásticos e níveis maiores de proteínas relacionadas à inflamação. Segundo os autores, esse resultado sugere que a exposição a essas partículas pode desencadear processos inflamatórios nas vias respiratórias, hipótese que deverá ser investigada em estudos futuros.
Impacto da pesquisa
O estudo amplia o conhecimento sobre os possíveis efeitos dos microplásticos na saúde respiratória. Embora os resultados não indiquem que essas partículas provoquem apneia do sono, a associação observada entre maior concentração de microplásticos e marcadores inflamatórios reforça a hipótese de que a exposição ambiental possa influenciar processos inflamatórios nas vias aéreas.
Os pesquisadores destacam que são necessários novos estudos para compreender os riscos da poluição plástica para a saúde humana e os mecanismos envolvidos nessa relação.